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Terry Eagleton - O amor é mais poderoso que a razão

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Clóvis

Ele era alto, magro e negro, com um porte que podia lembrar tanto um dândi quanto uma dama, isso dependia de quem o observava. Andava pelas ruas da pequena cidade a cata de serviços que lhe dessem o que comer no dia, qualquer serviço era bem-vindo e aceito. Não se importava com as humilhações, nem com o xingamento a que diversas vezes era submetido, estava acostumado. Sua vida fora sempre vivida entre aceitação, desaforos, pobreza e rebaixamento. O Sol queimava o chão manchado de terra vermelha, aquela cor que por mais que esfregasse estava impregnada na calçada, nos sapatos, no interior das pessoas do lugar, o vermelho comandava a vida da cidade, era do vermelho que brotavam as plantações que movimentavam o lugarejo. E Clóvis, com seus braços fortes e negros, esfregava e esfregava, sem esperança de que a brancura que um dia existira voltasse a reinar. Das poucas casas do lugar, apenas uma sempre lhe arrumava alguma coisa em que trabalhar, fosse esfregando a calçada, fosse arrancando…

Quarta Dimensão

Para Vânia Borges

Elas sofriam, cada uma a seu modo, cada uma em seu ritmo, cada uma num diapasão diferente. Duas vidas não podiam ser mais diferentes do que a delas, sendo o sofrimento a única coisa que as unia no momento em que se encontraram. Um encontro casual, daqueles que acontecem aos milhares num dia comum sobre a Terra. Talvez fosse acaso, talvez fosse destino, talvez fosse uma condição zodiacal favorável, mas o fato é que agora estavam frente a frente, e não havia mais como escapar desse encontro. Por que sofriam é um assunto delicado demais para ser tratado por esta escrivinhadora da vida. Quem sabe sofressem como outros tantos milhões de humanos: por desamor, por desapontamento, por indiferença. Quem sabe foi a força misteriosa que todo sofrimento tem que as empurrasse uma para a outra. Sem necessidade de muito falar, de muito argumentar, foram descobrindo as camadas de dor que as cobria, foram remediando as feridas que, ainda, insistiam em se manter abertas. Foram ocupan…

Prêmio Oceanos 2018

Indicação do livro de contos Quase Nada confirmada pela curadoria do Prêmio Oceanos. O caminho é árduo, porém estamos na torcida. Mais uma vez obrigada aos que leram, aos que não leram fica o convite.

Lembra quando você chegou?

Lembra quando você chegou? Era Abril, exatamente como na canção de Simon & Garfunkel. Começava a esfriar. Aquele frio do Sul, que vem com força nas manhãs de céu pintado de azul, depois nos abandona durante o dia para voltar à noite como uma amante esfomeada. Eu estava caminhando pelo centro, tinha acabado de entrar numa livraria que ficava na XV e era frequentada pelo pessoal da universidade e pela turma do Leminski, você não deve saber, mas tal livraria nem existe mais, fechou há uns 10 anos. E você estava lá, folheando um livro, com uma mochila pendurada no ombro, com cara de compenetrada e um moletom do curso de Filosofia. Você não me viu, mas eu a enxerguei. Quando veio perguntar o preço do livro foi que nossos olhos colidiram. Os meus eram desde aquele momento só ternura por você, os seus até hoje eu não consegui decifrar, e depois de tanto tempo eles, algumas vezes,escapam da minha memória. Depois disso, só fui te avistar duas semanas depois, no pátio da Reitoria. Era uma manh…

Interesses Avulsos

Para Oriane e pelo que poderia ter sido...

Poderia ter sido numa mesa de bar, poderia ter sido ao atravessar uma rua qualquer, poderia ter sido numa estação de trem perdida no meio do nada, mas não foi. Foi num ferry que cruzava a baía da Babitonga que eu a vi.
Não era verão, nem inverno, estávamos apenas adentrando o outono, quem sabe por isso o ferry tinha tão poucos carros. Porém, havia, já, aquele vento frio que, à força, vai abrindo espaço entre os fiordes da baía e trazendo uma garoa fina.
Sem nenhuma dificuldade, estacionei o carro em um lugar privilegiado, dali eu tinha uma vista frontal do mar e da ilha de São Francisco. Abaixei um pouco o vidro e liguei o rádio. Qual música tocava? Não consigo lembrar, naquele momentotoda a minha atenção estava voltada para ela.
A garota estava encostada numa das paredes da cabine do ferry e segurava uma bicicleta. Tinha um cabelo ruivo que caía em cachos suaves pelas costas. Devia ter uns vinte anos, talvez um pouco menos. Vestia uma calça jean…

Quando a manhã nasce

O que importa quando a manhã nasce? Frida Khalo, em seus Diários, diria que é a não ilusão. Mas como manter a fagulha crepitando sem um pouquinho que seja de ilusão? De uma ilusão a outra, quando a manhã nasce o céu segue atravessando todos os tons da luz, e eu – que sempre tive o hábito de levantar ainda no escuro – fico aqui no meu canto testemunhando a cada minuto a chegada do azul. E  há manhãs em que o azul é tanto que chega a doer dentro de mim. É o cheiro da flor de lavanda que fica mais intenso quando o sol aparece e evapora o orvalho que insistiu em amanhecer, é a sabiá-laranjeira que faz chegar até mim a sua excitação misturada com  melancolia, é o ruído – bem longe – de um carro, é um cão que late para o nada, é o gosto amargo do café na minha boca, é uma lembrança e uma expectativa, tudo isso uma manhã me traz. No entanto, na semana passada, além destes elementos e sensações tão familiares, a manhã me trouxe algo inesperado, me trouxe o passado, um passado inacabado. Tudo pode…