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Terry Eagleton - O amor é mais poderoso que a razão

Ócio criativo, Literatura e Wonderclub

Se você já leu alguma coisa sobre a sociedade da Grécia Antiga, deve lembrar que além dos gregos diminuírem as mulheres e criarem uma falsa democracia, foram os responsáveis pelas bases filosóficas do ocidente e pelo cultivo do ócio. Para um grego, o ócio era tão, ou mais, importante do que o trabalho, pois era devido ao tempo dedicado ao ócio que as novas ideias prosperavam e a sociedade evoluía.
Em 1990, o sociólogo italiano Domenico de Masi escreveu um livro chamado O Ócio Criativo, vejamos o que ele diz: “O ócio pode elevar-se para a arte, a criatividade e a liberdade.”
Voltemos ao primeiro parágrafo desse texto e veremos que De Masi nos contempla com o mesmo pensamento da Grécia Clássica. Para que os seres humanos evoluam intelectualmente, espiritualmente, e muitos outros “mentes”, é necessário que haja outros seres humanos que forneçam ferramentas àqueles por meio das artes em geral.
Ora veja cara leitora, agora chegamos ao ponto que interessa em nossa conversação. Como sobreviver fornecendo entretenimento, cultura, ideias, abstração em um mundo tão conectado ao lado mais prático da vida?
Há duas opções, ou você é uma celebridade da criatividade e ganha fortunas instantâneas (o que nos dias que correm é muito difícil, visto que a maioria das pessoas viram celebridades mostrando outras partes do corpo ao invés do cérebro), ou você, humildemente, cobra por seus serviços.
Porém, muitas vezes, o que vemos é uma reticência das pessoas em pagarem por um serviço que envolve o ócio criativo, e por que isso?  Me parece ser uma coisa muito brasileira isso de querer tudo de graça, principalmente se o serviço em questão engloba a criatividade e a abstração. “Ah, mas livros são caros”, não são amores. O esforço emocional, a privação da companhia de outras pessoas, o desgaste até mesmo físico para escrever um livro, valem cada centavo que você, leitora, paga por ele.
Eu nunca quis escrever para blogs, sites, portais e que tais, sempre tive uma relutância quanto a isso, pois detesto ter de lidar com prazos e gosto de dispor do meu tempo como bem entender. Quando o pessoal do Wonderclub me procurou para produzir um livro para elas levei um tempo para me decidir se aceitava a empreita ou não. Acabei por aceitar, primeiro porque o site me pareceu muito sério e profissional, segundo porque ter prazos me puxaria um pouco para a nossa dimensão e terceiro porque eu estava passando por um momento em que certas coisas estavam travadas na minha alma e eu precisava por para fora, e eu só ponho para fora escrevendo.

Até aqui nossa conversa está muito interessante e até abstrata, mas voltando ao ponto da sobrevivência, o Wonderclub é uma plataforma que para sobreviver e continuar fornecendo textos de qualidade às leitoras precisa ser pago. Na verdade, o pagamento é irrisório: $5,00 por mês por escritora. Com certeza você paga muito mais pelo Netflix ou o Spotify, pois então, a proposta do Wonderclub é a mesma, ser uma espécie de Netflix da literatura lésbica. E para que isso continue, nós escritoras precisamos tanto das leitoras quanto estas precisam de nós. É um troca justa, saudável e revolucionária.

Comentários

  1. Fabiula, obrigada por aceitar nosso convite para fazer parte da família Wonderclub.
    <3

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