Pular para o conteúdo principal

Clóvis

Ele era alto, magro e negro, com um porte que podia lembrar tanto um dândi quanto uma dama, isso dependia de quem o observava. Andava pelas ruas da pequena cidade a cata de serviços que lhe dessem o que comer no dia, qualquer serviço era bem-vindo e aceito. Não se importava com as humilhações, nem com o xingamento a que diversas vezes era submetido, estava acostumado. Sua vida fora sempre vivida entre aceitação, desaforos, pobreza e rebaixamento. O Sol queimava o chão manchado de terra vermelha, aquela cor que por mais que esfregasse estava impregnada na calçada, nos sapatos, no interior das pessoas do lugar, o vermelho comandava a vida da cidade, era do vermelho que brotavam as plantações que movimentavam o lugarejo. E Clóvis, com seus braços fortes e negros, esfregava e esfregava, sem esperança de que a brancura que um dia existira voltasse a reinar. Das poucas casas do lugar, apenas uma sempre lhe arrumava alguma coisa em que trabalhar, fosse esfregando a calçada, fosse arrancando…

Ócio criativo, Literatura e Wonderclub

Se você já leu alguma coisa sobre a sociedade da Grécia Antiga, deve lembrar que além dos gregos diminuírem as mulheres e criarem uma falsa democracia, foram os responsáveis pelas bases filosóficas do ocidente e pelo cultivo do ócio. Para um grego, o ócio era tão, ou mais, importante do que o trabalho, pois era devido ao tempo dedicado ao ócio que as novas ideias prosperavam e a sociedade evoluía.
Em 1990, o sociólogo italiano Domenico de Masi escreveu um livro chamado O Ócio Criativo, vejamos o que ele diz: “O ócio pode elevar-se para a arte, a criatividade e a liberdade.”
Voltemos ao primeiro parágrafo desse texto e veremos que De Masi nos contempla com o mesmo pensamento da Grécia Clássica. Para que os seres humanos evoluam intelectualmente, espiritualmente, e muitos outros “mentes”, é necessário que haja outros seres humanos que forneçam ferramentas àqueles por meio das artes em geral.
Ora veja cara leitora, agora chegamos ao ponto que interessa em nossa conversação. Como sobreviver fornecendo entretenimento, cultura, ideias, abstração em um mundo tão conectado ao lado mais prático da vida?
Há duas opções, ou você é uma celebridade da criatividade e ganha fortunas instantâneas (o que nos dias que correm é muito difícil, visto que a maioria das pessoas viram celebridades mostrando outras partes do corpo ao invés do cérebro), ou você, humildemente, cobra por seus serviços.
Porém, muitas vezes, o que vemos é uma reticência das pessoas em pagarem por um serviço que envolve o ócio criativo, e por que isso?  Me parece ser uma coisa muito brasileira isso de querer tudo de graça, principalmente se o serviço em questão engloba a criatividade e a abstração. “Ah, mas livros são caros”, não são amores. O esforço emocional, a privação da companhia de outras pessoas, o desgaste até mesmo físico para escrever um livro, valem cada centavo que você, leitora, paga por ele.
Eu nunca quis escrever para blogs, sites, portais e que tais, sempre tive uma relutância quanto a isso, pois detesto ter de lidar com prazos e gosto de dispor do meu tempo como bem entender. Quando o pessoal do Wonderclub me procurou para produzir um livro para elas levei um tempo para me decidir se aceitava a empreita ou não. Acabei por aceitar, primeiro porque o site me pareceu muito sério e profissional, segundo porque ter prazos me puxaria um pouco para a nossa dimensão e terceiro porque eu estava passando por um momento em que certas coisas estavam travadas na minha alma e eu precisava por para fora, e eu só ponho para fora escrevendo.

Até aqui nossa conversa está muito interessante e até abstrata, mas voltando ao ponto da sobrevivência, o Wonderclub é uma plataforma que para sobreviver e continuar fornecendo textos de qualidade às leitoras precisa ser pago. Na verdade, o pagamento é irrisório: $5,00 por mês por escritora. Com certeza você paga muito mais pelo Netflix ou o Spotify, pois então, a proposta do Wonderclub é a mesma, ser uma espécie de Netflix da literatura lésbica. E para que isso continue, nós escritoras precisamos tanto das leitoras quanto estas precisam de nós. É um troca justa, saudável e revolucionária.

Comentários

  1. Fabiula, obrigada por aceitar nosso convite para fazer parte da família Wonderclub.
    <3

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Vai de ebook ou de 'book'?

Outro dia uma pessoa me enviou uma mensagem perguntando se encontraria meus livros em livrarias físicas, pois queria lê-los mas não tinha o hábito de ler ebooks. Isso me fez recordar como há uns 3 anos eu também não lia ebooks. Na verdade, eu chegava a abominá-los. Hoje, minha perspectiva é totalmente diferente, não só porque eu publico somente em ebooks, mas também porque eu leio livros, quase só, em formato digital. A experiência de ler em ebook me fez tomar consciência de muita coisa, a primeira delas foi que minha vista estava ruim, pois como o ebook permite escolher o tamanho da letra eu percebi que podia ler muito melhor nesse formato, o que fez com que eu me sentisse como o personagem Miguilim quando usa o óculos pela primeira vez. Com o passar dos dias, fui percebendo também que não precisava mais desembolsar um monte de dinheiro para ler os livros que eu queria. O ebook é um produto barato! Por R$5 você consegue ler um livro que na livraria pagaria R$20, ou mais. Isso sem falar…

Ponto de Mutação

Não acredito em ponto final. Talvez  houvesse uma maneira melhor de começar essa conversa, quem sabe dizendo: ‘não acredito em reticências’. Porém, depois de muito pensar, cheguei a conclusão de que o ponto final seria a pontuação mais adequada. Quando ouço alguém falando: ‘vou colocar um ponto final nisso’, sempre me pergunto se , de fato, os pontos finais existem. Acredito que não, não existem, pois nós, como almas errantes e imperfeitas, estamos a milhas de estarmos perto de alguma conclusão. O que ocorre, diária e ininterruptamente, são pequenas e, não raras vezes, imperceptíveis mudanças. E acho que deveríamos nos abrir mais a elas. Com certeza, você deve, de tempos em tempos, fazer uma limpeza nos armários, todos fazemos. Abrimos as caixas empoeiradas, olhamos retratos descoloridos, objetos a muito tempo esquecidos, vislumbramos as memórias se aproximando de nós. Alguns as deixarão entrar e sair, outros fecharão as caixas e as colocarão no mesmo lugar de antes, outros, ainda, d…

Quando a manhã nasce

O que importa quando a manhã nasce? Frida Khalo, em seus Diários, diria que é a não ilusão. Mas como manter a fagulha crepitando sem um pouquinho que seja de ilusão? De uma ilusão a outra, quando a manhã nasce o céu segue atravessando todos os tons da luz, e eu – que sempre tive o hábito de levantar ainda no escuro – fico aqui no meu canto testemunhando a cada minuto a chegada do azul. E  há manhãs em que o azul é tanto que chega a doer dentro de mim. É o cheiro da flor de lavanda que fica mais intenso quando o sol aparece e evapora o orvalho que insistiu em amanhecer, é a sabiá-laranjeira que faz chegar até mim a sua excitação misturada com  melancolia, é o ruído – bem longe – de um carro, é um cão que late para o nada, é o gosto amargo do café na minha boca, é uma lembrança e uma expectativa, tudo isso uma manhã me traz. No entanto, na semana passada, além destes elementos e sensações tão familiares, a manhã me trouxe algo inesperado, me trouxe o passado, um passado inacabado. Tudo pode…