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Clóvis

Ele era alto, magro e negro, com um porte que podia lembrar tanto um dândi quanto uma dama, isso dependia de quem o observava. Andava pelas ruas da pequena cidade a cata de serviços que lhe dessem o que comer no dia, qualquer serviço era bem-vindo e aceito. Não se importava com as humilhações, nem com o xingamento a que diversas vezes era submetido, estava acostumado. Sua vida fora sempre vivida entre aceitação, desaforos, pobreza e rebaixamento. O Sol queimava o chão manchado de terra vermelha, aquela cor que por mais que esfregasse estava impregnada na calçada, nos sapatos, no interior das pessoas do lugar, o vermelho comandava a vida da cidade, era do vermelho que brotavam as plantações que movimentavam o lugarejo. E Clóvis, com seus braços fortes e negros, esfregava e esfregava, sem esperança de que a brancura que um dia existira voltasse a reinar. Das poucas casas do lugar, apenas uma sempre lhe arrumava alguma coisa em que trabalhar, fosse esfregando a calçada, fosse arrancando…

Fora do lugar-comum




O novo livro que Diana Rocco está escrevendo para o clube de literatura lésbica Wonderclub, merece algumas considerações devido à interessante técnica narrativa utilizada pela autora.
O primeiro impacto que o texto causa, ou deveria causar, numa leitora mais atenta, é a utilização de dois narradores, no caso duas narradoras, as personagens Lou e Gal. Antes de continuarmos, é necessário um adendo para que não se faça confusão, em todo e qualquer texto o personagem principal sempre será o narrador, seja o foco narrativo utilizado em primeira, segunda ou terceira pessoa, pois é ela (ou ele) o único a saber o final da história, além do autor.
Em Wird, o texto em questão, temos duas narradoras em primeira pessoa que nos apresentam dois pontos de vista diferentes sobre a mesma história. A estratégia utilizada pela autora  parece resultar, pois nos permite mais interpretações do que a utilização de apenas um narrador. Quem é a dominadora e quem é a dominada no texto? Afinal, nós temos duas histórias correndo em paralelo, duas versões dos acontecimentos.
Diana Rocco se arrisca por um terreno perigoso, a utilização de duas narradoras, com muita competência e talento, pois em nenhum momento ela deixa que as versões se tornem contraditórias, apesar de serem diversas.
As narradoras-personagens nos colocam, sem nenhum pudor, diante de suas almas atormentadas, nos mostram suas cicatrizes de vida que parecem se abrir ao menor toque, nos conduzem como hostess ao que de mais doce há no ser humano, o amor, e ao que há de mais amargo, a crueldade do abuso psicológico.
O espaço do texto não é físico, e esse é um outro elemento da narrativa que a engrandece. Não há muito descrição de espaços físicos, o que parece interessar a autora é a mente e os sentimentos das personagens, é, sobretudo, dentro deste espaço abstrato que a narrativa se desenvolve. Assim como o tempo, que não é nem um pouco linear. Com digressões, somos levadas a uma história que já foi, que já aconteceu, que já teve um fim. E o fim, nem mesmo a autora sabe qual é, isso cabe as narradoras saber.
Como as runas que em seu sentido oracular podem nos fornecer distintas interpretações quanto ao futuro, Wird é um texto que devido a sua profundidade nos permite múltiplas interpretações. A autora, junto com suas duas narradoras, acertou o tom.



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