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Clóvis

Ele era alto, magro e negro, com um porte que podia lembrar tanto um dândi quanto uma dama, isso dependia de quem o observava. Andava pelas ruas da pequena cidade a cata de serviços que lhe dessem o que comer no dia, qualquer serviço era bem-vindo e aceito. Não se importava com as humilhações, nem com o xingamento a que diversas vezes era submetido, estava acostumado. Sua vida fora sempre vivida entre aceitação, desaforos, pobreza e rebaixamento. O Sol queimava o chão manchado de terra vermelha, aquela cor que por mais que esfregasse estava impregnada na calçada, nos sapatos, no interior das pessoas do lugar, o vermelho comandava a vida da cidade, era do vermelho que brotavam as plantações que movimentavam o lugarejo. E Clóvis, com seus braços fortes e negros, esfregava e esfregava, sem esperança de que a brancura que um dia existira voltasse a reinar. Das poucas casas do lugar, apenas uma sempre lhe arrumava alguma coisa em que trabalhar, fosse esfregando a calçada, fosse arrancando…

Genderqueer

Tirésias é uma figura que sempre me instigou mais do que intrigou. Ele faz parte da mitologia grega e aparece na trilogia tebana do dramaturgo grego Sófocles e, também, nos cantos X e XI da Odisseia.
Nascido como homem, ele se transforma em mulher após matar a fêmea de um casal de cobras que copulavam no Monte Citorão. Depois de sete anos ele retorna ao Monte Citorão e acha novamente um casal de cobras copulando, desta vez mata o macho e se transforma em homem.
Por saber como é pertencer aos dois sexos, um dia ele é chamado por Zeus e Hera para opinar sobre quem sente mais prazer numa relação sexual, se o homem ou a mulher. Hera, que afirmava que era o homem a sentir mais prazer, sente-se ultrajada quando Tirésias diz que quem sente mais prazer é a mulher. Como vingança ela o cega. Zeus, compadecido da situação do pobre Tirésias, lhe dá o dom da profecia. E é do adivinho uma das falas mais bonitas das tragédias gregas: “Deus! Como é terrrível o dom da sabedoria quando não serve a quem o tem!
Assim como Tirésias, as Hijras, comunidade de mulheres transexuais da Índia com mais de 4000 anos de existência, também eram dotadas do dom da vidência, pois estas haviam pertencido tanto ao gênero masculino quanto ao feminino, o que lhes dava uma vantagem sobre os demais por conhecerem as particularidades de cada sexo.
Atualmente,  já se discute abertamente a fluidez dos gêneros e creio que num futuro não muito distante tal discussão nem existirá mais, será completamente sem importância, já que estudos apontam a existência de até cinco sexos e uma variante enorme entre estes, e termos como cis, trans, inter, pan serão substutídos apenas por pessoa sexual ou pessoa assexual.
Tirésias é, provavelmente, o primeiro personagem inserido na  questão da fluidez de gênero dentro da literatura. Os gregos nos legaram as bases da civilização ocidental e acredito que devemos usar as lições que eles nos deixaram, e não seria diferente no campo da literatura.
Escrever sem usar gêneros e sem “take a walk on the wild side” da vida talvez seja uma das coisas mais difíceis que há, poucas escritoras (es) conseguem, ainda mais em narrativas curtas. Por isso, o conto  A Viagem – de Diana Rocco – sempre me chamou muito a atenção. A personagem é uma garota – mas que parece não se identificar com nenhum gênero – que ao pegar um trem vazio acaba por adormecer e atravessar uma espécie de portal. Nesta outra dimensão, não existem gêneros definidos como os conhecemos aqui. O normal é a fluidez, é o quê e quem se deseja, é o amor que está por se fazer. E é aí que a garota descobre o que todos nós deveríamos ser, pessoas sexuais que não deveriam receber esta ou aquela classificação.
Um conto que acho que tem muitos horizontes a serem explorados, e que poderia, inclusive, tornar-se uma narrativa mais longa. Um conto com a cara do século XXII.
*Para saber mais sobre a teoria dos cinco sexos:
*Para saber mais sobre o conto  A Viagem:


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