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Clóvis

Ele era alto, magro e negro, com um porte que podia lembrar tanto um dândi quanto uma dama, isso dependia de quem o observava. Andava pelas ruas da pequena cidade a cata de serviços que lhe dessem o que comer no dia, qualquer serviço era bem-vindo e aceito. Não se importava com as humilhações, nem com o xingamento a que diversas vezes era submetido, estava acostumado. Sua vida fora sempre vivida entre aceitação, desaforos, pobreza e rebaixamento. O Sol queimava o chão manchado de terra vermelha, aquela cor que por mais que esfregasse estava impregnada na calçada, nos sapatos, no interior das pessoas do lugar, o vermelho comandava a vida da cidade, era do vermelho que brotavam as plantações que movimentavam o lugarejo. E Clóvis, com seus braços fortes e negros, esfregava e esfregava, sem esperança de que a brancura que um dia existira voltasse a reinar. Das poucas casas do lugar, apenas uma sempre lhe arrumava alguma coisa em que trabalhar, fosse esfregando a calçada, fosse arrancando…

De braços abertos

Ouço Caetano cantar “meu mar e minha mãe, meu medo e meu champagne, visão do espaço sideral”, leio Caio Fernando Abreu e, ainda, são sete da manhã. Lá fora faz 5 graus e uma neblina tão espessa que me impede de enxergar e de sair para caminhar. Aqui de dentro te escrevo; te escrevo devido a uma necessidade absurda. Não te conheço, assim como você também não me conhece, somos estranhas que numa das voltas da roda da vida acabarão se tocando.
Te escrevo porque quero te mostrar um pouco dos meus inúmeros pedaços, quem sabe assim a gente possa se encontrar em algum livro, em algum objeto, em algum cheiro que faça parte de nós duas.
Olho para a estante e vejo tantas leituras que passaram pela minha vida e que deixaram marcas, como aquelas que fazem nos animais, “você me leu, agora você é minha”, sabe como?
Virgínia Woolf, Thomas Mann, Saramago, Clarice, Lygia, Caio F., meus estudos sobre budismo e sobre ovnis. Cada um deles tatuou algo em minha alma.
Na penteadeira, que tem quase 50 anos e pertenceu a minha mãe, guardo meus relógios. Tenho cinco, nem sei para quê tantos, talvez seja medo de perder as horas, a circunstância, o prumo. Meu perfume é almiscarado e azul, como azul são as paredes do meu quarto. Já te falei que esse quarto, um dia, foi dos meus pais? Pois é, essa casa é daquelas antigas que guardam karmas pelos cantos.

Agora, Caetano tá cantando “o melhor o tempo esconde, longe, muito longe, mas bem dentro aqui”, e eu penso que o passado, o presente e o futuro são uma coisa só, que o tempo não existe, que as distâncias são meros graus de separação e que essa miríade de pedaços de que somos feitas é o que mostra quem somos.

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