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Clóvis

Ele era alto, magro e negro, com um porte que podia lembrar tanto um dândi quanto uma dama, isso dependia de quem o observava. Andava pelas ruas da pequena cidade a cata de serviços que lhe dessem o que comer no dia, qualquer serviço era bem-vindo e aceito. Não se importava com as humilhações, nem com o xingamento a que diversas vezes era submetido, estava acostumado. Sua vida fora sempre vivida entre aceitação, desaforos, pobreza e rebaixamento. O Sol queimava o chão manchado de terra vermelha, aquela cor que por mais que esfregasse estava impregnada na calçada, nos sapatos, no interior das pessoas do lugar, o vermelho comandava a vida da cidade, era do vermelho que brotavam as plantações que movimentavam o lugarejo. E Clóvis, com seus braços fortes e negros, esfregava e esfregava, sem esperança de que a brancura que um dia existira voltasse a reinar. Das poucas casas do lugar, apenas uma sempre lhe arrumava alguma coisa em que trabalhar, fosse esfregando a calçada, fosse arrancando…

Neon



Os orientais e os espiritualistas dizem que há uma unicidade entre o corpo e a alma, já os ocidentais com pensamento cartesiano sugerem o contrário, o que me leva a crer que o dilema entre o corpo e a alma ainda perdurará por muito tempo.
Deixei a metafísica de lado quando a vi entrando. O corpo, a primeira vista, parecia perfeito: alta, magra com substância e curvas, pele sem nenhuma marca ou mancha, o cabelo castanho claro que caía pelas costas em fios retos, e insuportavelmente jovem. Até Krishinamurti pararia para vê-la passar.
Na atmosfera meio esfumaçada do bar, ela se movimentava como um elfo atravessando uma floresta medieval, fornecia luminosidade ao ambiente. Deixei meu livro sobre a mesa, ao lado do copo de conhaque, e passei a observá-la e absorvê-la, até ela sair.
Todo final de tarde eu voltava ao bar na esperança de vê-la mais uma vez, ia acompanhada de um livro, bebia o conhaque de sempre e esperava. Depois de cinco dias, o elfo apareceu ofuscando tudo ao redor. Vestia uma roupa em tons de azul e levava nos ombros um cachecol tão grande que mais parecia um xale. Quando ela sentou-se numa mesa em frente a minha e me olhou, o que eu enxerguei foi só alma.
Inesperadamente, ela pegou sua caneca de café, levantou-se, atravessou o fog que nos separava e veio para mim.
“Sozinha?” Puxou uma cadeira e sentou-se.
“Estou sempre sozinha.” Respondi com um sorriso irônico.
“Eu li em algum livro que a solidão é a forma discreta do ressentimento.” Olhou para mim com uns olhos que pareciam duas fendas que esperavam apenas um passo em falso meu para me puxar para dentro.
“Cristóvão Tezza.”
“O quê?” Ela parecia confusa.
“Você leu no livro do Tezza, O Fotógrafo. Ele começa a história com essa frase.” Fiquei surpresa ao constatar que o elfo lia o Tezza. “Mas não concordo com ele. A solidão, para mim, é um estilo de vida, uma opção, e muitas vezes uma benção.”
“Então você não é uma pessoa ressentida?”
“De forma alguma.” Tomei mais um pequeno gole do conhaque.
“E você sempre segue o seu estilo de vida a risca, nunca dá uma pausa?” Senti seu joelho se insinuando entre minhas pernas.
“Depende.” Para ajudá-la, afastei as pernas.
“Do quê?”
“Da proposta e do proponente.” Seu joelho finalmente alcançava o meu ponto de equilíbrio e, também, de descontrole. Eu sabia que a partir dali tudo seria possível.
Ela não disse nada, apenas me olhava e me bolinava por debaixo da mesa. Senti minha calcinha úmida. Levantei-me, a peguei pela mão e saímos dali.
Além das luzes da rua que entravam pela janela da sala, o apartamento estava totalmente escuro. O neon da farmácia que ficava em frente atingia seu corpo nu, contornando-o e esparramando sua aura avermelhada pelo ambiente.
Quando ia levá-la para o quarto, ela me empurrou no sofá, se ajoelhou na minha frente e pôs sua língua quente e úmida dentro de mim. Coloquei minha mão sobre a sua cabeça e senti seu cabelo roçando meu ventre e sua língua subindo e descendo. Em silêncio, ela subiu em mim e me comeu, devagar, em círculos, depois com força, indo cada vez mais fundo em minhas entranhas. Minhas mãos em suas costas sentiam seu movimento de ir e vir, desci com as mãos até seu quadril e a puxei mais para dentro, até que ela atingiu meu meio, o ponto que me fez gozar e jogar todos os meus líquidos secretos sobre ela.
A noite seguiu entre todos os cantos do apartamento, por todos os nossos espaços, que foram preenchidos e gozados. Quando, finalmente, adormecemos, o neon da farmácia já estava apagado, e as luzes do amanhecer começavam a azular a cidade.
Me vesti tentando não fazer barulho, peguei um bloco de notas que estava sobre a mesa da cozinha e deixei um bilhete antes de partir.
“Solidão, meu amor, é o que precede a metamorfose.”



* O conto Neon faz parte do livro Quase Nada, sua reprodução é permitida desde que feita a devida referência.

Quase nada / Fabiula Bortolozzo. – 1. ed. – Curitiba: Editora Galadriel, 2017
     ISBN 978-85-93935-00-8

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