Pular para o conteúdo principal

Terry Eagleton - O amor é mais poderoso que a razão

Sobre tomates e livros


Aqui em casa tem alguns pés de tomate, eu comprei três saquinhos de semente e nós acabamos plantando só um, já que eram muitas sementinhas. Primeiro, usamos uma bacia como sementeira, quando eles ficaram maiorzinhos passamos para o chão, e entre uma rega, a chuva (que por aqui é constante), nossos cuidados e afeto, os tomatinhos cresceram e agora estão só esperando a mudança do verde para o vermelho.
Muitas coisas que acontecem no dia a dia puxam os fios das minhas memórias, e eu acabo sempre fazendo um link entre elas e o presente. Os tomatinhos são o caso mais recente.
Quando eu era uma pessoa pequena (como dizem os esquimós), na minha casa sempre tinha muitos cachorros, gatos, pássaros e plantas. De maneira que o cuidado com todos esses seres e a troca de energia com eles sempre foram de vital importância para mim. Colocar uma sementinha no algodão, vê-la crescer, transplantá-la, dar carinho para que se transformasse num ser exuberante; ou cuidar de um cachorrinho achado na rua até que ele ficasse taludo e seguisse em frente com sua própria força, era o mínimo que eu podia fazer.
Depois que virei uma pessoa grande, transportei essa devoção para os meus textos e para as minhas leituras. Escrever me fez resgatar todo o cuidado que sempre tive com todos os seres. Me envolvo com meus personagens de uma forma visceral, lhes dou vida e deixo que — depois de taludos — sigam e cumpram a sua função nesse mundo.
Não há como criar nada sem amor, sem cuidado, sem dedicação. Nem tomatinhos, nem arte. E é essa estranha conexão energética que me enlaça tanto com os tomatinhos quanto com os livros e meus personagens que eu procuro re-passar. Só regando nossas plantas conseguiremos chegar ao âmago da criação.
P.S.: infelizmente nem todos os tomatinhos vingaram.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ponto de Mutação

Não acredito em ponto final. Talvez  houvesse uma maneira melhor de começar essa conversa, quem sabe dizendo: ‘não acredito em reticências’. Porém, depois de muito pensar, cheguei a conclusão de que o ponto final seria a pontuação mais adequada. Quando ouço alguém falando: ‘vou colocar um ponto final nisso’, sempre me pergunto se , de fato, os pontos finais existem. Acredito que não, não existem, pois nós, como almas errantes e imperfeitas, estamos a milhas de estarmos perto de alguma conclusão. O que ocorre, diária e ininterruptamente, são pequenas e, não raras vezes, imperceptíveis mudanças. E acho que deveríamos nos abrir mais a elas. Com certeza, você deve, de tempos em tempos, fazer uma limpeza nos armários, todos fazemos. Abrimos as caixas empoeiradas, olhamos retratos descoloridos, objetos a muito tempo esquecidos, vislumbramos as memórias se aproximando de nós. Alguns as deixarão entrar e sair, outros fecharão as caixas e as colocarão no mesmo lugar de antes, outros, ainda, d…

Quando a manhã nasce

O que importa quando a manhã nasce? Frida Khalo, em seus Diários, diria que é a não ilusão. Mas como manter a fagulha crepitando sem um pouquinho que seja de ilusão? De uma ilusão a outra, quando a manhã nasce o céu segue atravessando todos os tons da luz, e eu – que sempre tive o hábito de levantar ainda no escuro – fico aqui no meu canto testemunhando a cada minuto a chegada do azul. E  há manhãs em que o azul é tanto que chega a doer dentro de mim. É o cheiro da flor de lavanda que fica mais intenso quando o sol aparece e evapora o orvalho que insistiu em amanhecer, é a sabiá-laranjeira que faz chegar até mim a sua excitação misturada com  melancolia, é o ruído – bem longe – de um carro, é um cão que late para o nada, é o gosto amargo do café na minha boca, é uma lembrança e uma expectativa, tudo isso uma manhã me traz. No entanto, na semana passada, além destes elementos e sensações tão familiares, a manhã me trouxe algo inesperado, me trouxe o passado, um passado inacabado. Tudo pode…

Lembra quando você chegou?

Lembra quando você chegou? Era Abril, exatamente como na canção de Simon & Garfunkel. Começava a esfriar. Aquele frio do Sul, que vem com força nas manhãs de céu pintado de azul, depois nos abandona durante o dia para voltar à noite como uma amante esfomeada. Eu estava caminhando pelo centro, tinha acabado de entrar numa livraria que ficava na XV e era frequentada pelo pessoal da universidade e pela turma do Leminski, você não deve saber, mas tal livraria nem existe mais, fechou há uns 10 anos. E você estava lá, folheando um livro, com uma mochila pendurada no ombro, com cara de compenetrada e um moletom do curso de Filosofia. Você não me viu, mas eu a enxerguei. Quando veio perguntar o preço do livro foi que nossos olhos colidiram. Os meus eram desde aquele momento só ternura por você, os seus até hoje eu não consegui decifrar, e depois de tanto tempo eles, algumas vezes,escapam da minha memória. Depois disso, só fui te avistar duas semanas depois, no pátio da Reitoria. Era uma manh…