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Clóvis

Ele era alto, magro e negro, com um porte que podia lembrar tanto um dândi quanto uma dama, isso dependia de quem o observava. Andava pelas ruas da pequena cidade a cata de serviços que lhe dessem o que comer no dia, qualquer serviço era bem-vindo e aceito. Não se importava com as humilhações, nem com o xingamento a que diversas vezes era submetido, estava acostumado. Sua vida fora sempre vivida entre aceitação, desaforos, pobreza e rebaixamento. O Sol queimava o chão manchado de terra vermelha, aquela cor que por mais que esfregasse estava impregnada na calçada, nos sapatos, no interior das pessoas do lugar, o vermelho comandava a vida da cidade, era do vermelho que brotavam as plantações que movimentavam o lugarejo. E Clóvis, com seus braços fortes e negros, esfregava e esfregava, sem esperança de que a brancura que um dia existira voltasse a reinar. Das poucas casas do lugar, apenas uma sempre lhe arrumava alguma coisa em que trabalhar, fosse esfregando a calçada, fosse arrancando…

Sobre tomates e livros


Aqui em casa tem alguns pés de tomate, eu comprei três saquinhos de semente e nós acabamos plantando só um, já que eram muitas sementinhas. Primeiro, usamos uma bacia como sementeira, quando eles ficaram maiorzinhos passamos para o chão, e entre uma rega, a chuva (que por aqui é constante), nossos cuidados e afeto, os tomatinhos cresceram e agora estão só esperando a mudança do verde para o vermelho.
Muitas coisas que acontecem no dia a dia puxam os fios das minhas memórias, e eu acabo sempre fazendo um link entre elas e o presente. Os tomatinhos são o caso mais recente.
Quando eu era uma pessoa pequena (como dizem os esquimós), na minha casa sempre tinha muitos cachorros, gatos, pássaros e plantas. De maneira que o cuidado com todos esses seres e a troca de energia com eles sempre foram de vital importância para mim. Colocar uma sementinha no algodão, vê-la crescer, transplantá-la, dar carinho para que se transformasse num ser exuberante; ou cuidar de um cachorrinho achado na rua até que ele ficasse taludo e seguisse em frente com sua própria força, era o mínimo que eu podia fazer.
Depois que virei uma pessoa grande, transportei essa devoção para os meus textos e para as minhas leituras. Escrever me fez resgatar todo o cuidado que sempre tive com todos os seres. Me envolvo com meus personagens de uma forma visceral, lhes dou vida e deixo que — depois de taludos — sigam e cumpram a sua função nesse mundo.
Não há como criar nada sem amor, sem cuidado, sem dedicação. Nem tomatinhos, nem arte. E é essa estranha conexão energética que me enlaça tanto com os tomatinhos quanto com os livros e meus personagens que eu procuro re-passar. Só regando nossas plantas conseguiremos chegar ao âmago da criação.
P.S.: infelizmente nem todos os tomatinhos vingaram.

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