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Terry Eagleton - O amor é mais poderoso que a razão

Lesbiar


É do conhecimento popular que as mulheres eram completamente desprestigiadas na Grécia Antiga, porém não é do conhecimento popular que algumas cidades-estado gregas tinham a mulher em um alto nível dentro da sociedade. Entre tais lugares, figurava a ilha de Lesbos. Portanto, uma figura mítica como Sapho só poderia ter surgido em tal ambiente social.
O que se sabe da vida de Sapho é quase nada, tudo o que se propaga é uma miríade de sonhos, mentiras e desinformação. Sapho viveu no período arcaico da Grécia, isso a coloca entre 500-600 A.C, ou seja, um período muito antigo, o que cria uma série de dificuldades para os historiadores falarem com propriedade sobre ele, afinal as testemunhas desse tempo já não existem mais, os documentos de tal período há muito se perderam.
As informações que chegaram até os dias atuais, nos foram dadas por figuras como Platão, o qual a tinha em altíssima conta, colocando-a no mesmo patamar da musas. Portanto, talvez a melhor maneira de saber mais sobre ela esteja na leitura de seus textos.
Um dos muitos mitos criados sobre a literatura de Sapho, é o de que seus poemas foram incinerados pela influente igreja católica  por conterem conteúdo que denotava o amor romântico entre mulheres. Atualmente, sabe-se que nada disso é fato, seus textos se perderam por causa daquele que nada perdoa: o tempo.
Os fragmentos que chegaram até nós nos mostram uma alma apaixonada, mas seria essa alma apaixonada por mulheres, por homens, ou pela vida em si? Difícil dizer, já que na Grécia Antiga a concepção de amor era completamente diferente da que temos hoje na sociedade ocidental.
Os gregos classificavam o amor em sete tipos – como explico em meu último romance  Estranho é o amor quando já não está –  que vamos citar rapidamente: Philautia, Storge, Ágape, Philia, Ludus, Eros e Pragma. Em qual desses tipos se encaixaria o amor expresso por Sapho em seus poemas? Seria um amor de irmã, de amiga, ou um amor erótico? Ninguém sabe, o que podemos é por meio da análise de um de seus poemas tentar uma aproximação com o amor que ela sentia.
Não minto: preferia que estivéssemos mortas.
Quando ela me deixou, chorava
“Mas, ah, que triste a nossa sina!”
Ela me disse, “Eu vou contra a minha vontade, juro,
Safo”.
“Seja feliz”, eu disse,“E lembre-se o quanto a quero.
(Você sabe bem) quem você deixou tremendo de amor.
Se você me esquecer, pense em todos os nossos presentes para Afrodite
E todos os nossos momentos de amor.”

A partir dessa tradução livre de um trecho de um dos poemas de Sapho, fica claro que o tipo de amor dedicado à mulher que parte se encaixa no tipo Eros, ou seja, um amor com jogos de sedução, com uma intenção erótica, um amor que na contemporaneidade classificaríamos como romântico. O sentimento de Sapho por sua amiga nos chega de forma muito explícita, porém, estaria ela falando, de fato, para uma amante que parte?
Não podemos afirmar, porém foi – muito mais do que por fatos de sua vida – à partir de poemas como este, e da liberdade que as mulheres de Lesbos gozavam, que Sapho entrou para o panteão da posteridade como uma amante das mulheres, imprimindo eternamente seu nome e nome de sua ilha ao amor no feminino.
Dizem, mas há controvérsias, que o termo lesbianismo passou a designar o amor entre duas mulheres no período medieval, mas como a história é movediça e a cada dia se descobre algo a mais, não podemos afirmar se isso é real ou não.
No entanto, sabe-se que na Grécia Antiga o homossexualismo masculino era norma, e que fazer sexo com uma mulher era considerado degradante. O sexo heterossexual servia apenas para fins de procriação. Portanto, os gregos jamais denominariam de lesbianismo o amor entre duas mulheres, provavelmente tal tipo de amor não fazia parte da concepção de mundo grega, as mulheres eram seres muito inferiores para se entregarem ao amor.
Cabe ressaltar, ainda, que na Grécia o termo ‘lesbiar’ significava ‘imitar as mulheres de Lesbos’, ou seja, dedicar-se  à música, à poesia, à escrita, ao debate, coisas que eram vetadas as demais mulheres gregas. No entanto, se nos dias atuais eu a chamasse, cara leitora, para ‘lesbiar’, a conotação seria outra, provavelmente estaria convidando-a  para fazer sexo.

Para finalizar, deixo a indicação de alguns livros com os poemas de Sapho, a Musa Sábia.

Sapho, fragmentos completos – tradução Gulherme Gontijo Flores – Editora 34
Hino a Afrodite e outros poemas – Editora Hedra
Poemas e fragmentos – Editora Iluminuras
Websites:







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