Pular para o conteúdo principal

Clóvis

Ele era alto, magro e negro, com um porte que podia lembrar tanto um dândi quanto uma dama, isso dependia de quem o observava. Andava pelas ruas da pequena cidade a cata de serviços que lhe dessem o que comer no dia, qualquer serviço era bem-vindo e aceito. Não se importava com as humilhações, nem com o xingamento a que diversas vezes era submetido, estava acostumado. Sua vida fora sempre vivida entre aceitação, desaforos, pobreza e rebaixamento. O Sol queimava o chão manchado de terra vermelha, aquela cor que por mais que esfregasse estava impregnada na calçada, nos sapatos, no interior das pessoas do lugar, o vermelho comandava a vida da cidade, era do vermelho que brotavam as plantações que movimentavam o lugarejo. E Clóvis, com seus braços fortes e negros, esfregava e esfregava, sem esperança de que a brancura que um dia existira voltasse a reinar. Das poucas casas do lugar, apenas uma sempre lhe arrumava alguma coisa em que trabalhar, fosse esfregando a calçada, fosse arrancando…

Lesbiar


É do conhecimento popular que as mulheres eram completamente desprestigiadas na Grécia Antiga, porém não é do conhecimento popular que algumas cidades-estado gregas tinham a mulher em um alto nível dentro da sociedade. Entre tais lugares, figurava a ilha de Lesbos. Portanto, uma figura mítica como Sapho só poderia ter surgido em tal ambiente social.
O que se sabe da vida de Sapho é quase nada, tudo o que se propaga é uma miríade de sonhos, mentiras e desinformação. Sapho viveu no período arcaico da Grécia, isso a coloca entre 500-600 A.C, ou seja, um período muito antigo, o que cria uma série de dificuldades para os historiadores falarem com propriedade sobre ele, afinal as testemunhas desse tempo já não existem mais, os documentos de tal período há muito se perderam.
As informações que chegaram até os dias atuais, nos foram dadas por figuras como Platão, o qual a tinha em altíssima conta, colocando-a no mesmo patamar da musas. Portanto, talvez a melhor maneira de saber mais sobre ela esteja na leitura de seus textos.
Um dos muitos mitos criados sobre a literatura de Sapho, é o de que seus poemas foram incinerados pela influente igreja católica  por conterem conteúdo que denotava o amor romântico entre mulheres. Atualmente, sabe-se que nada disso é fato, seus textos se perderam por causa daquele que nada perdoa: o tempo.
Os fragmentos que chegaram até nós nos mostram uma alma apaixonada, mas seria essa alma apaixonada por mulheres, por homens, ou pela vida em si? Difícil dizer, já que na Grécia Antiga a concepção de amor era completamente diferente da que temos hoje na sociedade ocidental.
Os gregos classificavam o amor em sete tipos – como explico em meu último romance  Estranho é o amor quando já não está –  que vamos citar rapidamente: Philautia, Storge, Ágape, Philia, Ludus, Eros e Pragma. Em qual desses tipos se encaixaria o amor expresso por Sapho em seus poemas? Seria um amor de irmã, de amiga, ou um amor erótico? Ninguém sabe, o que podemos é por meio da análise de um de seus poemas tentar uma aproximação com o amor que ela sentia.
Não minto: preferia que estivéssemos mortas.
Quando ela me deixou, chorava
“Mas, ah, que triste a nossa sina!”
Ela me disse, “Eu vou contra a minha vontade, juro,
Safo”.
“Seja feliz”, eu disse,“E lembre-se o quanto a quero.
(Você sabe bem) quem você deixou tremendo de amor.
Se você me esquecer, pense em todos os nossos presentes para Afrodite
E todos os nossos momentos de amor.”

A partir dessa tradução livre de um trecho de um dos poemas de Sapho, fica claro que o tipo de amor dedicado à mulher que parte se encaixa no tipo Eros, ou seja, um amor com jogos de sedução, com uma intenção erótica, um amor que na contemporaneidade classificaríamos como romântico. O sentimento de Sapho por sua amiga nos chega de forma muito explícita, porém, estaria ela falando, de fato, para uma amante que parte?
Não podemos afirmar, porém foi – muito mais do que por fatos de sua vida – à partir de poemas como este, e da liberdade que as mulheres de Lesbos gozavam, que Sapho entrou para o panteão da posteridade como uma amante das mulheres, imprimindo eternamente seu nome e nome de sua ilha ao amor no feminino.
Dizem, mas há controvérsias, que o termo lesbianismo passou a designar o amor entre duas mulheres no período medieval, mas como a história é movediça e a cada dia se descobre algo a mais, não podemos afirmar se isso é real ou não.
No entanto, sabe-se que na Grécia Antiga o homossexualismo masculino era norma, e que fazer sexo com uma mulher era considerado degradante. O sexo heterossexual servia apenas para fins de procriação. Portanto, os gregos jamais denominariam de lesbianismo o amor entre duas mulheres, provavelmente tal tipo de amor não fazia parte da concepção de mundo grega, as mulheres eram seres muito inferiores para se entregarem ao amor.
Cabe ressaltar, ainda, que na Grécia o termo ‘lesbiar’ significava ‘imitar as mulheres de Lesbos’, ou seja, dedicar-se  à música, à poesia, à escrita, ao debate, coisas que eram vetadas as demais mulheres gregas. No entanto, se nos dias atuais eu a chamasse, cara leitora, para ‘lesbiar’, a conotação seria outra, provavelmente estaria convidando-a  para fazer sexo.

Para finalizar, deixo a indicação de alguns livros com os poemas de Sapho, a Musa Sábia.

Sapho, fragmentos completos – tradução Gulherme Gontijo Flores – Editora 34
Hino a Afrodite e outros poemas – Editora Hedra
Poemas e fragmentos – Editora Iluminuras
Websites:







Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Vai de ebook ou de 'book'?

Outro dia uma pessoa me enviou uma mensagem perguntando se encontraria meus livros em livrarias físicas, pois queria lê-los mas não tinha o hábito de ler ebooks. Isso me fez recordar como há uns 3 anos eu também não lia ebooks. Na verdade, eu chegava a abominá-los. Hoje, minha perspectiva é totalmente diferente, não só porque eu publico somente em ebooks, mas também porque eu leio livros, quase só, em formato digital. A experiência de ler em ebook me fez tomar consciência de muita coisa, a primeira delas foi que minha vista estava ruim, pois como o ebook permite escolher o tamanho da letra eu percebi que podia ler muito melhor nesse formato, o que fez com que eu me sentisse como o personagem Miguilim quando usa o óculos pela primeira vez. Com o passar dos dias, fui percebendo também que não precisava mais desembolsar um monte de dinheiro para ler os livros que eu queria. O ebook é um produto barato! Por R$5 você consegue ler um livro que na livraria pagaria R$20, ou mais. Isso sem falar…

Ponto de Mutação

Não acredito em ponto final. Talvez  houvesse uma maneira melhor de começar essa conversa, quem sabe dizendo: ‘não acredito em reticências’. Porém, depois de muito pensar, cheguei a conclusão de que o ponto final seria a pontuação mais adequada. Quando ouço alguém falando: ‘vou colocar um ponto final nisso’, sempre me pergunto se , de fato, os pontos finais existem. Acredito que não, não existem, pois nós, como almas errantes e imperfeitas, estamos a milhas de estarmos perto de alguma conclusão. O que ocorre, diária e ininterruptamente, são pequenas e, não raras vezes, imperceptíveis mudanças. E acho que deveríamos nos abrir mais a elas. Com certeza, você deve, de tempos em tempos, fazer uma limpeza nos armários, todos fazemos. Abrimos as caixas empoeiradas, olhamos retratos descoloridos, objetos a muito tempo esquecidos, vislumbramos as memórias se aproximando de nós. Alguns as deixarão entrar e sair, outros fecharão as caixas e as colocarão no mesmo lugar de antes, outros, ainda, d…

Quando a manhã nasce

O que importa quando a manhã nasce? Frida Khalo, em seus Diários, diria que é a não ilusão. Mas como manter a fagulha crepitando sem um pouquinho que seja de ilusão? De uma ilusão a outra, quando a manhã nasce o céu segue atravessando todos os tons da luz, e eu – que sempre tive o hábito de levantar ainda no escuro – fico aqui no meu canto testemunhando a cada minuto a chegada do azul. E  há manhãs em que o azul é tanto que chega a doer dentro de mim. É o cheiro da flor de lavanda que fica mais intenso quando o sol aparece e evapora o orvalho que insistiu em amanhecer, é a sabiá-laranjeira que faz chegar até mim a sua excitação misturada com  melancolia, é o ruído – bem longe – de um carro, é um cão que late para o nada, é o gosto amargo do café na minha boca, é uma lembrança e uma expectativa, tudo isso uma manhã me traz. No entanto, na semana passada, além destes elementos e sensações tão familiares, a manhã me trouxe algo inesperado, me trouxe o passado, um passado inacabado. Tudo pode…