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Clóvis

Ele era alto, magro e negro, com um porte que podia lembrar tanto um dândi quanto uma dama, isso dependia de quem o observava. Andava pelas ruas da pequena cidade a cata de serviços que lhe dessem o que comer no dia, qualquer serviço era bem-vindo e aceito. Não se importava com as humilhações, nem com o xingamento a que diversas vezes era submetido, estava acostumado. Sua vida fora sempre vivida entre aceitação, desaforos, pobreza e rebaixamento. O Sol queimava o chão manchado de terra vermelha, aquela cor que por mais que esfregasse estava impregnada na calçada, nos sapatos, no interior das pessoas do lugar, o vermelho comandava a vida da cidade, era do vermelho que brotavam as plantações que movimentavam o lugarejo. E Clóvis, com seus braços fortes e negros, esfregava e esfregava, sem esperança de que a brancura que um dia existira voltasse a reinar. Das poucas casas do lugar, apenas uma sempre lhe arrumava alguma coisa em que trabalhar, fosse esfregando a calçada, fosse arrancando…

Interesses Avulsos






Para Oriane e pelo que poderia ter sido...


Poderia ter sido numa mesa de bar, poderia ter sido ao atravessar uma rua qualquer, poderia ter sido numa estação de trem perdida no meio do nada, mas não foi. Foi num ferry que cruzava a baía da Babitonga que eu a vi.

Não era verão, nem inverno, estávamos apenas adentrando o outono, quem sabe por isso o ferry tinha tão poucos carros. Porém, havia, já, aquele vento frio que, à força, vai abrindo espaço entre os fiordes da baía e trazendo uma garoa fina.

Sem nenhuma dificuldade, estacionei o carro em um lugar privilegiado, dali eu tinha uma vista frontal do mar e da ilha de São Francisco. Abaixei um pouco o vidro e liguei o rádio. Qual música tocava? Não consigo lembrar, naquele momento  toda a minha atenção estava voltada para ela.

A garota estava encostada numa das paredes da cabine do ferry e segurava uma bicicleta. Tinha um cabelo ruivo que caía em cachos suaves pelas costas. Devia ter uns vinte anos, talvez um pouco menos. Vestia uma calça jeans rasgada no joelho e um casaco de lã azul. Na cestinha da bicicleta carregava uma mochila e um maço de margaridas.

A garoa, que avançava na mesma velocidade do ferry, criara uma névoa que nos separava, e eu, escondida dentro do carro, me sentia envolta por uma atmosfera de sonho.

E se descesse e a chamasse para se abrigar no interior do carro? Ainda tínhamos vinte minutos de travessia. Vinte minutos é tempo suficiente para mudar muitas vidas, é tempo suficiente para nascer e morrer, para abrir o coração e para perdê-lo, tempo suficiente para ir embora.

Se eu tentasse alcançá-la, por quanto tempo ela ficaria em minha vida? Um ano, uma semana, uma noite? Ou, quem sabe, apenas o tempo daquela travessia.

Ela poderia me contar sobre seus anseios e esperanças, sobre seu olhar de quase menina, sobre as cores do seu mundo, sobre seu livro favorito, sobre o amor e sobre aquela música que ela ouve repetidamente durante a tarde toda.

Talvez, fôssemos de mãos-dadas ao cinema, e depois ela me levaria para conhecer seus lugares escondidos, aqueles que são só dela e pelos quais passeia nas tardes de sol. Durante à noite, poderíamos ficar horas rindo, interminavelmente, ao telefone.

Numa manhã de inverno, debaixo das cobertas, você me contaria sobre o seu primeiro beijo, sobre o seu primeiro amor. E quando a primavera chegasse tomaríamos  banho de chuva, só para que depois eu te secasse e te chamasse de minha menina.

Assim que o ferry atracou na ilha, você puxou o capuz do casaco sobre seus cabelos ruivos, subiu na bicicleta e saiu pedalando. Eu liguei o carro, peguei a estrada, deixei o amor acontecer dentro de mim e em silêncio te desejei uma vida cheia de manhãs ensolaradas e amores possíveis.


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