Pular para o conteúdo principal

Clóvis

Ele era alto, magro e negro, com um porte que podia lembrar tanto um dândi quanto uma dama, isso dependia de quem o observava. Andava pelas ruas da pequena cidade a cata de serviços que lhe dessem o que comer no dia, qualquer serviço era bem-vindo e aceito. Não se importava com as humilhações, nem com o xingamento a que diversas vezes era submetido, estava acostumado. Sua vida fora sempre vivida entre aceitação, desaforos, pobreza e rebaixamento. O Sol queimava o chão manchado de terra vermelha, aquela cor que por mais que esfregasse estava impregnada na calçada, nos sapatos, no interior das pessoas do lugar, o vermelho comandava a vida da cidade, era do vermelho que brotavam as plantações que movimentavam o lugarejo. E Clóvis, com seus braços fortes e negros, esfregava e esfregava, sem esperança de que a brancura que um dia existira voltasse a reinar. Das poucas casas do lugar, apenas uma sempre lhe arrumava alguma coisa em que trabalhar, fosse esfregando a calçada, fosse arrancando…

Lembra quando você chegou?





                Lembra quando você chegou? Era Abril, exatamente como na canção de Simon & Garfunkel. Começava a esfriar. Aquele frio do Sul, que vem com força nas manhãs de céu pintado de azul, depois nos abandona durante o dia para voltar à noite como uma amante esfomeada.
            Eu estava caminhando pelo centro, tinha acabado de entrar numa livraria que ficava na XV e era frequentada pelo pessoal da universidade e pela turma do Leminski, você não deve saber, mas tal livraria nem existe mais, fechou há uns 10 anos. E você estava lá, folheando um livro, com uma mochila pendurada no ombro, com cara de compenetrada e um moletom do curso de Filosofia. Você não me viu, mas eu a enxerguei.
            Quando veio perguntar o preço do livro foi que nossos olhos colidiram. Os meus eram desde aquele momento só ternura por você, os seus até hoje eu não consegui decifrar, e depois de tanto tempo eles, algumas vezes,  escapam da minha memória.  
            Depois disso, só fui te avistar duas semanas depois, no pátio da Reitoria. Era uma manhã de sol e vento, e você estava sentada no muro conversando com algumas pessoas, acho que eram seus colegas de curso. Seu cabelo, que naquela época ia até abaixo do ombro e era todo cacheado, voava e cobria uma parte do seu rosto.
            Na cantina da faculdade nós nos falamos pela primeira vez, lembra? Foi numa tarde, durante o intervalo das suas aulas. Nem sei o que eu estava fazendo por lá, afinal eu só tinha aula de manhã. Talvez tenham sido as Moiras, ou alguma ordem cósmica, ou uma conjunção astral que me empurrou para aquele lugar, naquele exato momento, até você.
            Eu estava sentada lendo e você se apresentou, perguntou se podia sentar comigo. Olhou meu livro e comentou sobre ele. E foi assim que eu – um cachorro no horóscopo chinês –, tão boa ouvinte, encontrei você, um galo observador e atento a tudo o que ia dentro da minha cabeça, como se adivinhasse meus pensamentos.
            Lembra como o Maio daquele ano foi quente? Eu lembro porque quando Maio chegou, nós já estávamos muito mais do que uma nos braços da outra. Entre a faculdade, minha casa e o seu quarto entulhado de livros, nós descobrimos as nossas formas de amar, o sexo entre duas garotas, a intimidade de nossos corpos, a cumplicidade de nossas almas.
            A única coisa que queríamos era passar o nosso tempo livre fazendo amor, lendo e fumando maconha, nessa ordem. Você me falava sobre os seus poetas favoritos, me ensinou sobre Rilke e toda a transcendentalidade que permeia os poemas dele, por sua causa Rilke acabou se tornando meu poeta favorito.
            No começo de Junho, quando nos sentamos na confeitaria Schaffer, como fazíamos sempre que os dias ficavam mais frios e cinzentos, e pedimos chocolate quente, você não fazia nem ideia do que eu iria te pedir, seus olhos brilharam quando eu a convidei para deixar seu quarto de estudante e mudar para minha casa. Ficou em mim a sua imagem, toda enrolada em um cachecol grosso e colorido, com a ponta do nariz vermelha por causa do frio e seu sorriso que fazia com que covinhas aparecessem.
            A geada e as férias de julho fizeram com que ficássemos instaladas debaixo das cobertas. Para esquentar as manhãs, café quente; para as tardes, pipoca e filmes do Fellini; para às noites, vinho e amor. Nos amávamos em todos os lugares da casa, no quarto, no banheiro, na mesa da cozinha, no sofá. Era um tempo só nosso, para descobrirmos em detalhes cada pedaço mais sensível da pele, cada gemido pronunciado, cada movimento do quadril, cada toque da língua.
            Em agosto, o mês do cachorro-louco como dizem os antigos, voltamos à normalidade da vida. E, talvez, tenha sido essa normalidade – ou quem sabe a primavera que vinha querendo tomar o espaço como uma prima donna  que a tenha feito querer voar. E foi a ventania de agosto que acabou por  te ajudar a levantar voo. E como todo vento que chega sem avisar, sem cheiro nem cor, você pegou suas coisas e foi embora, sem nem me desejar boa sorte.
            Eu também fui embora depois que terminei a faculdade. Fui embora do apartamento, da cidade e depois do país. Faz três anos que voltei para cá, e alguns meses atrás eu passei em frente ao prédio onde a gente viveu aquele inverno. A fachada mudou de cor, ao lado construíram outro edíficio, a confeitaria onde nós bebíamos chocolate quente não existe mais, foi substituída por um daqueles shoppings populares que, atualmente, são tão “populares”, e o Leminski deixou esse mundo faz tempo, mas a poesia dele continua esparramada pela cidade toda.
            Hoje, faz 22 anos que você morreu. Eu ainda morava na Itália quando recebi uma carta me avisando da sua passagem. Me lembro do frio que tomou conta do meu corpo, de como eu sentei com a carta na mão e um  pintarroxo, que é um pássaro tão comum por lá, pousou no jardim e ficou me olhando com aqueles olhinhos pequenos e escuros. Era agosto,  ventava e eu ainda sentia algo de você em mim.
           
           
           

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Vai de ebook ou de 'book'?

Outro dia uma pessoa me enviou uma mensagem perguntando se encontraria meus livros em livrarias físicas, pois queria lê-los mas não tinha o hábito de ler ebooks. Isso me fez recordar como há uns 3 anos eu também não lia ebooks. Na verdade, eu chegava a abominá-los. Hoje, minha perspectiva é totalmente diferente, não só porque eu publico somente em ebooks, mas também porque eu leio livros, quase só, em formato digital. A experiência de ler em ebook me fez tomar consciência de muita coisa, a primeira delas foi que minha vista estava ruim, pois como o ebook permite escolher o tamanho da letra eu percebi que podia ler muito melhor nesse formato, o que fez com que eu me sentisse como o personagem Miguilim quando usa o óculos pela primeira vez. Com o passar dos dias, fui percebendo também que não precisava mais desembolsar um monte de dinheiro para ler os livros que eu queria. O ebook é um produto barato! Por R$5 você consegue ler um livro que na livraria pagaria R$20, ou mais. Isso sem falar…

Ponto de Mutação

Não acredito em ponto final. Talvez  houvesse uma maneira melhor de começar essa conversa, quem sabe dizendo: ‘não acredito em reticências’. Porém, depois de muito pensar, cheguei a conclusão de que o ponto final seria a pontuação mais adequada. Quando ouço alguém falando: ‘vou colocar um ponto final nisso’, sempre me pergunto se , de fato, os pontos finais existem. Acredito que não, não existem, pois nós, como almas errantes e imperfeitas, estamos a milhas de estarmos perto de alguma conclusão. O que ocorre, diária e ininterruptamente, são pequenas e, não raras vezes, imperceptíveis mudanças. E acho que deveríamos nos abrir mais a elas. Com certeza, você deve, de tempos em tempos, fazer uma limpeza nos armários, todos fazemos. Abrimos as caixas empoeiradas, olhamos retratos descoloridos, objetos a muito tempo esquecidos, vislumbramos as memórias se aproximando de nós. Alguns as deixarão entrar e sair, outros fecharão as caixas e as colocarão no mesmo lugar de antes, outros, ainda, d…

Quando a manhã nasce

O que importa quando a manhã nasce? Frida Khalo, em seus Diários, diria que é a não ilusão. Mas como manter a fagulha crepitando sem um pouquinho que seja de ilusão? De uma ilusão a outra, quando a manhã nasce o céu segue atravessando todos os tons da luz, e eu – que sempre tive o hábito de levantar ainda no escuro – fico aqui no meu canto testemunhando a cada minuto a chegada do azul. E  há manhãs em que o azul é tanto que chega a doer dentro de mim. É o cheiro da flor de lavanda que fica mais intenso quando o sol aparece e evapora o orvalho que insistiu em amanhecer, é a sabiá-laranjeira que faz chegar até mim a sua excitação misturada com  melancolia, é o ruído – bem longe – de um carro, é um cão que late para o nada, é o gosto amargo do café na minha boca, é uma lembrança e uma expectativa, tudo isso uma manhã me traz. No entanto, na semana passada, além destes elementos e sensações tão familiares, a manhã me trouxe algo inesperado, me trouxe o passado, um passado inacabado. Tudo pode…