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Terry Eagleton - O amor é mais poderoso que a razão

Clóvis


Ele era alto, magro e negro, com um porte que podia lembrar tanto um dândi quanto uma dama, isso dependia de quem o observava. Andava pelas ruas da pequena cidade a cata de serviços que lhe dessem o que comer no dia, qualquer serviço era bem-vindo e aceito. Não se importava com as humilhações, nem com o xingamento a que diversas vezes era submetido, estava acostumado. Sua vida fora sempre vivida entre aceitação, desaforos, pobreza e rebaixamento.
O Sol queimava o chão manchado de terra vermelha, aquela cor que por mais que esfregasse estava impregnada na calçada, nos sapatos, no interior das pessoas do lugar, o vermelho comandava a vida da cidade, era do vermelho que brotavam as plantações que movimentavam o lugarejo. E Clóvis, com seus braços fortes e negros, esfregava e esfregava, sem esperança de que a brancura que um dia existira voltasse a reinar.
Das poucas casas do lugar, apenas uma sempre lhe arrumava alguma coisa em que trabalhar, fosse esfregando a calçada, fosse arrancando o mato, fosse nada, apenas comida sem trabalho. Era ali, onde estava tentando limpar o vermelho, que Clóvis encontrava abrigo e amizade, carinho e proteção, bondade e compaixão.
Naquela manhã, chegara bem cedo, sabia que o trabalho seria árduo, e, por isso, resolvera ficar em casa na noite anterior, não iria ao posto de gasolina na beira da rodovia, onde noite após noite buscava por um pouco de prazer e, por que não, um sopro de amor. Andava pelo pátio sujo onde os caminhões estacionavam para passar à noite, vestindo apenas um shortinho colado ao corpo e uma blusinha que ia pelo meio da barriga, nos pés eternamente  encardidos de vermelho uma havaiana de cada cor. Batia nas portas dos caminhões, em algumas não encontrava resposta, na maioria entrava e passava um tempo ali dentro, passando depois para outro caminhão.
As roupas que vestia ele ganhava das moças, eram três, filhas da dona da casa que sempre o acolhia, bem como maquiagem e meias de nylon, que usava enquanto dormia para tentar deixar o pixaim liso, o que, com muito esforço, algumas vezes resultava.
A mãe delas sempre o recebia com uma caneca de café e um pedaço de bolo, e antes que ele chegasse dizia-lhes, “Clóvis é um ser humano como nós, feito do mesmo pó, ele é como é porque Deus o fez assim, e ninguém tem o direito de julgá-lo.”
Depois de terminado o trabalho, Clóvis voltava para o seu barraco carregado de comida, algum dinheirinho e as, inevitáveis, meias de nylon. Não vivia só, tinha a mãe junto dele, que, velha demais para se mexer, esperava-o todos os dias para alimentá-la. “Hoje tem macarrão mãe, Dona Laura fez no almoço. A senhora sabe que ela é italiana, então todo dia tem macarrão.” A mãe não se manifestava, aceitava o prato de comida como sempre vivera, em silêncio.
Depois de alimentá-la  e colocá-la para dormir era a hora dele, ia para fora, puxava água do poço e se lavava na bacia que havia no terreiro. Pegava o espelhinho que ganhara de uma das moças e começava a se montar, primeiro o rímel, não era tarefa complicada, tinha os cílios longos e certa prática. Passava o pó na cara para dar uma branqueada, naquela terra de gente branca não era fácil ser, além de viado, preto. Lambuzava a boca com o batom vermelho e, por último, pintava as unhas, naquela noite a cor usada foi um rosinha claro, alguns do bofes gostavam de olhar para aquela unha com cor de menina entrando na puberdade.
Vestiu o shortinho estava sujo, mas fazer o quê, não havia muita opção –, a blusinha e resolveu usar a meia de nylon para cobrir os pelos pretos e enrolados, que mesmo ele raspando insistiam em crescer. Era segunda-feira, o posto tinha mais movimento na segunda do que nos demais dias da semana. Montado como estava o sucesso estava garantido. Só faltava o salto agulha, este ele não podia pedir às moças, seu pé era muito maior do que o delas.
Saiu perto das nove da noite. Ao atravessar a rua principal da cidade, a qual ia dar na rodovia, ouviu alguém chamando-o. Ao virar para ver quem era recebeu uma pedra na testa, pequena, mas fez o sangue correr. Ouviu risadas, e saiu correndo para não ser alcançado pela segunda pedrada. Ao chegar perto da rodovia, desacelerou o passo, não ouviu mais ninguém atrás dele.
Virou à esquerda e pegou a rodovia no sentido do posto, tentava limpar o sangue que escorria pelo rosto quando ouviu um baque e viu a camionete passar e repassar por cima do corpo. Em minutos tudo era só um emplastro de sangue no chão. Clóvis olhava para aquele corpo disforme e a última voz que escutou antes de fazer a travessia foi de Dona Laura, “Clóvis, você é filho de Deus como todo mundo, feito do mesmo pó.”

Comentários

  1. Nossa, que triste =( Mas devo dizer: muito bela sua escrita!

    Infelizmente, essa é a realidade opressiva e injusta que muitos passam...... ú_ù

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